ENTREVISTA: Francisca Fernandes

Francisca Fernandes nasceu em 2008 em Valongo. A leitura e a escrita fazem parte da sua vida desde que nasceu. O Diário de Alison Brown é o seu primeiro livro publicado, mas já escreveu dezenas de histórias, as quais partilha em plataformas como o Wattpad. Em 2023 publica Tudo ou Nada, o segundo volume com a chancela da Oficina da Escrita. Dois anos depois presenteia os leitores com um young adult, Enquanto as Bombas Caem, um livro que reflete sobre um dos maiores confrontos de sempre, a guerra entre a Rússia e a Ucrânia.

  • O que é para ti a escrita?

A escrita para mim é como um porto seguro, onde me posso expressar livremente, escrever e reescrever todos os momentos e saber que, ao contrário da vida, na escrita eu estou no controle e posso criar os meus próprios começos e finais.

  • Como é a tua rotina da escrita?

Normalmente, escrevo todos os dias à noite, antes ou depois de jantar. Acho que é a altura do dia onde nos chegam as grandes ideias à mente. Também o faço porque é quando tenho mais tempo, pois durante o dia tenho aulas e outros compromissos. Costumo passar por volta de uma hora/uma hora e meia a escrever e só me levanto da cadeira porque a fome ou o sono começam a apertar!

  • Tens horários ou rituais específicos?

Não. Apesar de, na maior parte das vezes, escrever à noite ou ao final do dia, não tenho nenhum horário específico para o fazer. Costumo passar por volta de uma hora/uma hora e meia a fazê-lo e só me levanto da cadeira porque a fome ou o sono começam a apertar!

  • Qual a parte mais desafiadora do processo de escrita para ti?

Atrevo-me a dizer que é o início dos livros. Geralmente, quando tenho uma ideia, imagino de imediato o final e, depois, o desenvolvimento. Mas como é que vou começar tudo isto? Como é que posso levar a história e as personagens para a narrativa que eu quero, captando, ainda assim, o leitor logo na primeira página? É sem dúvida a parte mais desafiadora.

  • Como lidas com o bloqueio criativo? 

Acho que, por agora, ainda não tive propriamente um, mas, por vezes, sinto que tenho de parar, pensar um bocadinho e só depois voltar a teclar. Tento, sobretudo, que a minha escrita seja natural e fluída e, quando estou num dia menos produtivo, não me massacro por isso. Acho que parar, descansar e só voltar a escrever no dia ou nos dias seguintes é uma boa solução para lidar com o bloqueio. 

  • Costumas planear a história antes de começares a escrever? 

Costumo, mas raramente no papel, e sim na minha cabeça. Quando começo a escrever uma história, já sei qual é o final que lhe vou dar – está sujeito a alterações, claro, mas a essência é aquela. A ideia base de todo o livro, o desenvolvimento, é o que me faz escrevê-lo, mas é o final que me dá motivação. Já para escrever o início, não planeio nada e deixo sempre aberto para ajustes quando acabar o manuscrito (como disse antes, é a parte mais desafiadora para mim). É quando chego ao desenvolvimento que começo a escrever num caderno todas as minhas ideias e a organizar por dias, seja o livro um diário ou não, aquilo que vou fazer que aconteça – e muitas vezes é quando surgem as maiores reviravoltas. Tento, por isso, ter a minha ideia base, mas sei que planear tudo antecipadamente não é um bom método para mim, porque vão me surgindo novos pensamentos e, por vezes, as próprias personagens ganham vida.

  • Existe alguma personagem nos teus livros que reflita parte de ti?

Para mim, todas as personagens que crio têm sempre uma parte de mim, por mais pequena que seja. No entanto, existem duas personagens que se assemelham mais à pessoa que sou, do que qualquer outras: Alison (da saga Diário de Alison Brown) e Anna (do livro Enquanto as Bombas Caem). Quem tiver oportunidade de ler ambos, irá perceber que a forma como elas se expressam e falam são muito parecidas… e semelhantes a mim.

  • Qual o maior desafio que enfrentaste como escritora? 

O meu maior desafio, como escritora jovem, foi lidar com certos “nãos” que não acreditavam no meu potencial, somente por eu ser uma miúda. Por outro lado, também tive muita gente a confiar no meu trabalho, admirando-me por eu ser uma miúda, e isso foi uma ajuda para lidar com os “nãos”.

  • Quais os livros de outros autores que influenciaram na tua escrita?

A saga Diário de um Banana foi sem dúvida a maior influenciadora da minha escrita. Sendo uma saga cômica e que sempre gostei, inspirou-me para começar a escrever, pois queria construir algo que divertisse tanto os outros como aquela saga me divertia a mim. Além disso, inspirou-me para escrever os meus livros com recurso à comédia, mesmo quando o tema é mais profundo, como aconteceu na minha última obra Enquanto as Bombas Caem.

  • Como foi a tua experiência com a publicação do teu primeiro livro? 

A experiência foi muito boa, porque tive o apoio incondicional da minha família e amigos que sempre me incentivaram desde o ínicio. Além disso, o facto de estar a realizar um sonho, com apenas 11/12 anos, era algo que nunca poderia ter imaginado. No meio do nervosismo e um bocadinho de stress, a alegria falava mais alto. Acho que mesmo que fique imensamente feliz com a publicação de todos os meus livros, o primeiro é sempre o primeiro, é uma nova experiência, e as emoções que estão presentes em todas as publicações, na primeira, estavam quintuplicatas.

  • Atualmente estás a trabalhar em algum projeto novo?

Agora estou a tentar terminar a saga Diário de Alison Brown Vol.II, mas também estou com outro projeto em mãos, fora dessa saga, que é já uma ideia antiga, mas que estou agora a “renová-la”… No entanto, não posso dar spoilers!

  • Quais os teus objetivos no futuro profissionalmente?

Os meus objetivos para o futuro envolverão sempre a escrita. Quero continuar a escrever e a evoluir nesse campo, mas também tenho outros sonhos que envolvem cinema, teatro musical e comunicação. 

  • Qual a importância da leitura na tua vida? 

A leitura sempre fez parte da minha vida desde muito nova e sei que sou quem sou hoje por causa dela. Desenvolveu não só a minha criatividade, como me deu várias visões diferentes do mundo, que acho que é o mais importante. E, claro, não podemos esquecer que foi a leitura que me levou ao meu sonho, a escrita. 

  • O que esperas quando os leitores leem os teus livros?

Espero que sonhem, que amem e que tenham esperança. E claro, que se riam, muito, mas muito mesmo. As pessoas são muito sérias, deviam rir-se mais. Amar mais. Sonhar mais. E ter mais esperança, porque é isso que nos mantém humanos.

  • Que conselhos darias a escritores iniciantes?

Atirem-se de cabeça para o vosso sonho. Não tenham medo de não estar bom o suficiente ou de alguém não gostar. Eu também comecei a escrever o meu primeiro livro aos dez anos, recebi muitos “nãos” e hoje, com dezasseis, tenho três publicados. Não se limitem a sonhar, façam acontecer, porque ninguém o vai fazer por vocês. Sejam ambiciosos, mas tenham os vossos pés bem assentes no chão. Tudo se faz com trabalho, esforço, resiliência e amor. E, acima de tudo, não se esqueçam de se rodear de pessoas boas pelo caminho, porque nada nos adianta vencer, se não tivermos com quem partilhar as nossas vitórias. 

“Francisca Fernandes é uma jovem autora audaciosa e perspicaz sobre tudo que a rodeia, é um exemplo a seguir pela sua personalidade vibrante e acolhedora”.