O amor é a mais antiga invenção humana. Não falo do amor dos poemas que escrevo ou leio, ou das tragédias shakespearianas, mas daquele que aninha-se no dia a dia, um amor que é por si mesmo, um poema do belo. A beleza de amar reside sobretudo na capacidade que este demonstra na facilidade de nos desarmar. É a paz que encontramos num silêncio partilhado, onde as palavras são meras palavras, porque os olhos dizem tudo. É a leveza de ser imperfeito ao lado de alguém que nos vê na nossa plenitude. Amar é construir um dicionário de afetos, cartas feitas de jokers, de olhares cúmplices por cima da mesa de jantar e de costumes tolos que só fazem sentido para ambos. É neste íntimo que a beleza revela-se, na vulnerabilidade corajosa, é a arte de despir armaduras e confiar que o outro não use a nudez emocional como arma. Este sentimento obriga-nos a sair do nosso egoísmo mais confortável e a ver o mundo através de um olhar diferente. Aprendemos a celebrar vitórias que não são nossas, mas como se fossem, oferecemos os ombros nos abismos, não para preencher, mas para demonstrar que esse alguém não se sinta sozinho. A verdadeira beleza do amor é aquele que se torna num gesto partilhado, a clareza de um carinho conjunto. É a junção de duas vidas que se propagam e criam um novo horizonte. Não há maior beleza do que testemunhar a evolução do amor, da faísca à brasa, da paixão ao companheirismo profundo. Não é menos ou mais intenso, é diferente: mais calmo, mais seguro, mais puro e verdadeiro. Porque no fundo amar é isto: a coragem de ficar, o lado meigo de cuidar e a beleza indescritível de tornar-se lar um do outro. Amar não é encontrar o sentimento em tudo que nos rodeia, mas construir um pedaço dele todos os dias, a dois.
“Amar não é encontrar o sentimento em tudo que nos rodeia, mas construir um pedaço dele todos os dias, a dois.”

