O Natal, para muitos, é um espetáculo de luzes cintilantes, mesas aparatosas e presentes debaixo de árvores gigantescas. É a época da grandiosidade, onde o tamanho das coisas dita a nossa alegria. Na verdade, a magia mais autêntica reside naquilo que passa despercebido, na fragilidade e na beleza das pequenas coisas. Não é a prenda mais cara que nos faz recuar no tempo, mas sim, o cheiro intenso a canela a sair do forno, misturado com o pinheiro natural, esse que insiste em perder agulhas pela sala. É o aroma da casa da avó, que conseguia tornar todas as memórias de infância num único inalamento. É esse o cheiro do Natal: algo cozinhado com amor e afeto. As decorações são importantes, mas temos de pensar, por exemplo, na simplicidade de uma vela. A chama dessa vela dança,projeta sombras longas e suaves nas paredes, cria um espaço acolhedor e silencioso no meio do ruído habitual. Não é o piscar frenético das luzes LED na arvóre ou na rua que acalmam, mas o brilho constante e humilde de uma luz que nos convida a parar para apreciar. É o momento em que a família se senta à mesa, após o jantar, cansada mas contente, e o único som audível é o da felicidade. O verdadeiro presente não se embrulha. É o sorriso e o riso de uma criança que pela primeira vez acredita em tudo genuinamente, ficam espantados com uma simples luz; é a mão áspera do pai que aperta com força, é a conversa com familiares que só os vemos anualmente, mais precisamente neste dia, onde a distância é resolvida em poucos minutos de partilha. O Natal das grandes coisas impõem-nos um peso: a obrigação de sermos felizes, de gastarmos muito e de termos tudo perfeito. Pessoalmente, prefiro o Natal das pequenas coisas. É libertador, é aceitar a felicidade na escassez preciosa. A felicidade não está no excesso. Está na imperfeição de uma travessa de leite-creme queimada, na canção desafinada e na pequena caixa de bombons partilhada. Troque o glamour pela simplicidade. Procure a magia naquela chávena de chocolate quente que aquece as maõs e a alma, na história contada pela miléssima vez, na imperfeição da vida, que quando partilhada, torna-se ainda mais perfeita. No fundo, o Natal é apenas uma desculpa para celebrarmos o amor de uma forma mais paciente, que se constrói, dia após dia, nas pequenas coisas da nossa existência. O Natal das pequenas coisas é aquele que se mede pelo tempo que dedicamos a eternizar memórias, e não a gastar dinheiro.
“O Natal das pequenas coisas é aquele que se mede pelo tempo que dedicamos a eternizar memórias, e não a gastar dinheiro.”

